Nem todo cansaço vem do corpo: tecnologia, IA e a urgência de cuidar da saúde mental em 2026
- Christina Guedes

- 14 de jan.
- 2 min de leitura
Vivemos um tempo em que quase tudo acontece ao mesmo tempo.
Mensagens chegam, notificações piscam, tarefas se acumulam, decisões precisam ser tomadas em segundos.
A tecnologia ampliou nossas capacidades, mas também encurtou nossos intervalos de silêncio.
O corpo está sentado.
A mente, nunca para.
Nesse cenário, surge um tipo de cansaço que não melhora com férias, sono ou fim de semana. Um esgotamento que não vem do excesso de esforço físico, mas daquilo que nunca teve espaço para ser sentido, pensado ou simbolizado.

A inteligência artificial, as plataformas digitais e os sistemas de automação transformaram profundamente a forma como trabalhamos, nos relacionamos e nos percebemos.
Ganhamos velocidade, produtividade e alcance, mas perdemos, pouco a pouco, o direito de parar.
Hoje não basta trabalhar.
É preciso responder.
Não basta estar disponível.
É preciso estar sempre conectado.
Essa hiperconectividade cria uma ilusão de controle, mas gera uma realidade de exaustão. A mente permanece em estado de alerta contínuo, como se estivesse sempre atrasada em relação ao mundo.
O resultado é um estresse que se acumula de forma silenciosa.
Ansiedade sem nome.
Irritabilidade sem causa aparente.
Um vazio que não se preenche com mais eficiência.
Talvez você se reconheça nisso.
Você funciona: entrega resultados, cumpre prazos, mantém compromissos, mas por dentro sente um cansaço que não passa, uma inquietação difusa, uma sensação de que algo importante está sendo deixado para trás.
Isso não é fraqueza.
É o corpo e a mente pedindo escuta.
A saúde mental, nesse contexto, deixa de ser um tema secundário e se torna uma questão central da vida contemporânea. Não se trata apenas de prevenir adoecimentos, mas de preservar a capacidade de sentir, pensar e escolher em um mundo que exige respostas automáticas.
Saúde mental não é apenas ausência de doença.
É poder sentir sem se culpar.
É ter espaço interno para elaborar o que dói, o que confunde e o que não encontra palavras.
É não precisar performar bem-estar o tempo todo.
A tecnologia pode organizar tarefas.
A inteligência artificial pode otimizar processos.
Mas nenhuma delas pode escutar o que se passa dentro de você.
A psicoterapia, torna-se um dos poucos lugares ainda não automatizáveis da experiência humana. Um espaço onde não é preciso ter respostas prontas, onde a pressa perde força e onde aquilo que foi silenciado pode finalmente ser dito.
É nesse espaço que o sujeito deixa de apenas funcionar e começa a existir.
Em 2026, falar de inovação sem falar de saúde mental é incompleto. O verdadeiro avanço não está apenas em máquinas mais inteligentes, mas em pessoas mais conectadas consigo mesmas.
Cuidar da mente é cuidar da vida.
E talvez esse seja o movimento mais revolucionário que podemos fazer em tempos de aceleração.
Iniciar um novo ciclo começa por escutar aquilo que você vem sentindo em silêncio.
Christina Guedes Lopes
Psicóloga



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