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O sono e o sonho: caminhos silenciosos da saúde mental

  • Foto do escritor: Christina Guedes
    Christina Guedes
  • 15 de abr.
  • 3 min de leitura

Vivemos dias cheios, atravessados por tarefas, prazos e pensamentos que não cessam. Muitas vezes, seguimos no automático, acreditando estar conscientes de nossas escolhas, mas pouco atentos ao que sentimos. Quando a noite chega, o corpo até desacelera, mas a mente continua em movimento. É nesse desencontro que o sono começa a se tornar um desafio e, ao mesmo tempo, um convite.


A saúde mental não se sustenta apenas no que pensamos, mas, principalmente, no que sentimos. As emoções são parte essencial da nossa vida psíquica. Elas nascem no corpo, como reações naturais diante do mundo, e se transformam em sentimentos quando ganham significado dentro de nós. O medo, por exemplo, pode surgir como uma resposta automática a uma ameaça, mas é na forma como o reconhecemos e lidamos com ele que construímos nossa experiência emocional. Quando não há espaço para esse reconhecimento, algo fica interrompido.


Segundo Carl Gustav Jung, a afetividade é a base da personalidade. Isso significa que não somos organizados apenas por pensamentos racionais, mas por um conjunto de emoções, memórias e experiências que formam aquilo que sentimos. Quando ignoramos esse campo afetivo, perdemos o contato com partes importantes de nós mesmos. E é justamente nesse ponto que o sono e o sonho ganham um papel fundamental.


Durante o dia, muitas emoções são silenciadas pela rotina. Seguimos, produzimos, resolvemos, mas nem sempre elaboramos o que nos atravessa. À noite, quando o silêncio se instala, aquilo que não pôde ser sentido encontra uma outra forma de expressão. A mente continua ativa porque há conteúdos que ainda não foram escutados. A insônia, nesse sentido, nem sempre é apenas um problema a ser eliminado, mas pode ser um sinal de que algo dentro de nós pede atenção.


Os sonhos surgem como uma linguagem possível para esse encontro. Eles não seguem a lógica do dia, nem precisam fazer sentido imediato. São imagens, sensações, narrativas simbólicas que expressam aquilo que, muitas vezes, não conseguimos colocar em palavras. Para Jung, os sonhos têm uma função de autorregulação da psique. É como se, durante o sono, a mente buscasse reorganizar experiências, emoções e conflitos, criando novas possibilidades de compreensão.


Nesse processo, entram também os chamados complexos, que são núcleos emocionais formados ao longo da vida, especialmente nas relações que vivemos. São experiências carregadas de afeto que, quando ativadas, influenciam a forma como percebemos e reagimos ao mundo. Muitas vezes, repetimos padrões sem perceber, guiados por essas marcas emocionais. Nos sonhos, esses complexos aparecem de forma simbólica, como personagens, cenários ou situações que, de algum modo, nos tocam profundamente.


Os símbolos presentes nos sonhos não são aleatórios. Eles carregam sentidos que não se esgotam em uma única interpretação. Um símbolo revela e esconde ao mesmo tempo. Ele aponta para algo mais profundo, ainda não totalmente consciente. Por isso, ao invés de buscar respostas rápidas, o mais importante é se permitir sentir o que aquele sonho desperta. É nesse movimento que algo começa a se transformar.



Cuidar do sono, então, não é apenas garantir horas de descanso físico. É criar condições para que esse trabalho interno aconteça. Pequenos rituais podem fazer diferença: desacelerar ao final do dia, diminuir estímulos, permitir momentos de silêncio. Não como uma obrigação, mas como um gesto de cuidado. Um espaço onde o corpo possa descansar e a mente, aos poucos, se reorganizar.




Sonhar é também uma forma de continuar vivendo por dentro. É onde emoções encontram caminho, onde experiências são revisitadas, onde novas possibilidades começam a surgir. Quando nos permitimos esse encontro, algo se ajusta. A vida deixa de ser apenas uma sequência de tarefas e passa a ter sentido.


Talvez a saúde mental comece exatamente aí: na capacidade de sentir, de escutar e de dar lugar ao que nos habita. E, muitas vezes, é durante o sono que esse processo encontra sua forma mais silenciosa e profunda de acontecer.


Christina Guedes

Psicanalista

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